segunda-feira, 15 de março de 2010

A Bagagem

Nunca caminhamos sós, temos uma história, pensamentos difusos ou concretos a passear na cabeça, temos roupa, temos acessórios, temos cabelo, cara, identidade, expressões, voz e um corpo. Um imigrante não vem só. Traz consigo pensamentos que pertencem a si e fruto da sua cultura, traz a roupa da moda, da sua moda, o penteado característico da sua cultura, a identidade ganha num outro local, a voz com língua não portuguesa e um corpo. Esta bagagem, esta mala de viagem cultural não é desprezada mas integrada no novo país, e, por sua vez, ganha novos pertences da cultura do país para onde imigrou. É um fenómeno de aculturação, de intercâmbio, uma dinâmica troca de valores, modas, falas e cores. O nosso país é uma forma colectiva de bagagens, onde a música que ouvimos, as palavras que empregamos e os filmes que vemos não são tipicamente portugueses, pois não? Se pensarmos bem vivemos numa cultura mestiça, nós e todo o mundo, não existe tal coisa como uma cultura pura, por isso deixemo-nos de extremismos e encaremos a diversidade que aceitámos viver quotidianamente. É ridículo acusarmos quem imigra para Portugal de “contaminar” os nossos costumes (brandos) portugueses, pois, na realidade, passamos o tempo a exportar formas culturais do estrangeiro, sem pagar taxa fixa. Os filmes americanos, o earl grey vindo directamente de Londres, a camisola feita na China, no Paquistão ou na Índia, o novo single de rap, as havaianas do Brasil, e outras infinitos contributos mundiais, que genericamente falando são “bués”( palavra africana). Enganam-se se estiverem a pensar que estou a atacar o nosso costume de exportar costumes, estou simplesmente a dizer que é incoerente apontar o dedo a quem vem de fora quando nós trazemos o “fora” constantemente para dentro.
Estereótipos à parte, os contributos da imigração podem ser extremamente enriquecedores, não esquecendo que existe também uma assimilação dos costumes portugueses por parte do imigrante. Ou seja, homogeneizamos as formas de viver, se estas não forem incompatíveis ou se não nos mantivermos impermeáveis a novos hábitos.



Sara Mendes

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